Sabedoria versus títulos

Já levantamos o assunto aqui no blog , com o post Há vagas para maturis?, , mas com o aumento da longevidade e portanto, o prolongamento da vida ativa, o assunto está em alta.

Recentemente a Band fez uma matéria sobre o assunto e uma das personagens foi nossa amiga Karla Leite.

A matéria  diz que o  número de vagas ocupadas por profissionais com mais de 50 anos caiu 11% em comparação ao mesmo período de 2018. Mas uma pesquisa recente traz nova esperança. Nove em cada 10 empresas ouvidas no estudo dizem que contratariam funcionários desta faixa etária

Pedi a ela então, que fizesse um panorama de sua vida profissional, desde que começou e quais os desafios atuais. 

Vejam que relato interessante:

Me formei em engenharia civil em 1983, um ano antes das “Diretas Já “. Uma coisa nesses últimos 35 anos não mudou: minha vida profissional sempre esteve em sintonia com a gangorra econômica da nossa economia.

O resto, tudo mudou!

Assim que entrei no mercado de trabalho, ele era bem definido e dividido em três classes de engenheiros: os sêniores, em cargos de chefia, que correspondiam à elite do conhecimento, solicitados para resolver situações críticas. Os engenheiros médios, com mais de 10 anos de experiência ( sim , era um tempo onde antiguidade era posto). E ali bem no pé da pirâmide  estávamos nós, os juniores, que tínhamos a incumbência de aprender o que a faculdade não ensinou.

As sucessivas crises econômicas brasileiras carregaram para fora de suas áreas de profissão uma geração inteira de engenheiros novos e promissores, que foram atuar em Informática, administração, economia e marketing.

Nos tornamos a geração perdida da década de 80. Isso abriu uma lacuna na transmissão de conhecimentos. Por isso, 20 anos atrás eu comecei a incentivar jovens para a minha área de atuação, que é a geotécnica ( fundações, estabilidade de encostas, barragens, entre outras atividades).

Desenvolvi um método de análise de risco de encostas, e nesta época eu trabalhava para a Vale, junto com a diretoria da Ferrovia. Ministrei cursos para os engenheiros da Vale, do Brasil todo.

Dez anos depois me deparei com a encosta de São Conrado, na obra da linha 4 do metrô. Ali novamente me preocupei em orientar jovens profissionais frente aos desafios complexos.

Vieram as obras em grandes empreendimentos hidrelétricos e fui morar no Sul para a construção da UHE Barra Grande, e depois no norte, para a construção da UHE Belo Monte.

Mas o mercado de trabalho, em sua dinâmica continua, permanecia mudando, e os títulos de coordenador e gerente passaram da mão de engenheiros experientes para as mãos de engenheiros novos, que são cruelmente alçados para cargos de responsabilidade pelos títulos oferecidos, mas com salários baixos, e sem experiência.

Hoje, 90% dos cargos de chefia são ocupados por profissionais que possuem idade para serem meus filhos.

Sim, o mercado mudou, mas não necessariamente para melhor. Nesta busca por jovens, contam títulos de mestrado e doutorado. Mas me vem à pergunta: no mercado corporativo Vale mais a experiência efetiva ou a tese sobre um tema que não tenha necessariamente a ver com a função que o profissional irá ocupar?

As consequências disso são catastróficas. Obras começam a cair por que “esqueceram” de levar em conta o vento, a onda, a chuva, os sinais da instrumentação. Documentos burocráticos  valendo mais que a responsabilidade técnica sobre a integridade física das construções. Projetos e obras seguem sem um orientador para orquestrar empreendimentos de grande impacto social, econômico e ambiental.

Num mundo tão imediatista, vejo jovens profissionais sendo intitulados especialistas, por terem participado apenas de um projeto ou de uma obra. Sumiu a figura do engenheiro Júnior, que agora é trainee, e depois vira coordenador/gerente e o escambou, dependendo se tiver mestrado, se for proativo, se amar o que faz…. e uma lista sem fim de babaquices, que passam ao largo de um requisito que deveria ser primordial: experiência. O engenheiro médio “pulou de ano” e virou sênior. O sênior…. que deveria estar ali com a equipe…. agora é master, e difícil de encontrar.

A geração de ouro, aqueles grandes consultores, já aposentaram, e até mesmo os mais resistentes deixaram de atuar no mercado. Da minha geração, poucos restaram para guiar os mais novos, e desses poucos muitos estão se aposentando.

O que esperar do futuro? Difícil esta resposta, mas na minha profissão, tendo como ponto de análise os últimos eventos trágicos com barragens de rejeito, é que a experiência ainda é uma moeda de grande valor . O investimento no treinamento deve ser continuo.

E o que eu espero de mim?

Ahhh, eu sou da geração perdida, aquela que não desistiu da profissão mesmo depois de enfrentar tantas tempestades, conheci e trabalhei com a geração de ouro, dos grandes consultores, que me ensinaram a nunca parar e me reinventar sempre. Por isso, sigo aprendendo, eternamente aprendiz.

E no pós epílogo não posso esquecer de mencionar que recentemente consegui uma bolsa de pesquisadora, para atuar com a única barragem de rejeito radioativo no Brasil. E assim a vida vai me presenteando com desafios. Para cada missão cumprida meu cérebro registra um “X” e aperta a tecla “NEXT”.

1 comentário

  1. Adorei o texto, até por conhecer o nível do trabalho da Karla. Lembro que, na complexa obra do metrô carioca, ela mencionou que a expertise de um engenheiro era medida pelos km de túneis que já havia feito na sua carreira. A juniorização das empresas é fato, mas hoje está ficando claro é que: 1) os mais velhos também são muito capazes de inovação, 2) se a diversidade cataliza mais inovação, a intergeracionalidade é a fronteira a ser explorada pelas empresas e 3) contratar jovens por serem mais econômicos é o típico barato que sai caro!

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