Demolindo estereótipos

A televisão está vivendo um momento muito especial para quem já passou dos 60. Duas séries que estão no ar na Netflix são de “lavar a alma” de maturis, homens e mulheres.

A primeira delas é Grace & Frankie, que une duas talentosíssimas atrizes, por acaso também comediantes e amigas de vários outros filmes: Jane Fonda e Lily Tomlin. A história começa com dois maridos e sócios (os também maturis Martin Sheen e Sam Waterston), que um belo dia comunicam às suas esposas serem gays e terem um caso há anos. Em choque, elas acabam indo morar juntas na casa de praia que as famílias compartilhavam, o que rende muitos conflitos hilários, porque não podiam ter estilos mais diferentes.

Grace (Fonda) é uma empresária famosa, perua, que tem sua própria marca de cosméticos, agora gerida pela filha; Frankie (Tomlin) é uma artista plástica hippie e esotérica, que inventa na cozinha de casa um lubrificante vaginal natureba, feito de mandioca. Farejando uma oportunidade de negócio, ambas lançam o produto comercialmente e descobrem um mercado enorme de senhorinhas cheias de luxúria, se tornando um grande sucesso.

Não faltam namorados para ambas, de paixões antigas a novos romances, o que já é inédito quando se trata de mostrar mulheres mais velhas com vida sexual ativa. Fonda, que foi um símbolo sexy em Barbarella e depois a rainha do fitness, não se acanha em mostrar os efeitos da idade, sob a forma de artrite, falta de memória e – numa cena antológica que vai para a história do cinema – confronta seu namorado mais jovem com seu “eu real”, desmontando todos os disfarces da sua aparência.

Grace e seu “verdadeiro eu”

É muito comum ver galãs maduros em novelas (e fora das telas também) se relacionando com mulheres bem mais jovens. Por isso chega a ser revolucionário o roteiro de The Kominsky Method, protagonizado por Michael Douglas e Alan Arkin. Um artista decadente (Douglas) e seu empresário milionário e amigo de muitos anos (Arkin), que recém ficou viúvo, escancaram todas as mazelas dos homens na andropausa, como “fazer xixi em código Morse” por causa de problemas na próstata, só ter vida sexual à base de comprimidinhos azuis, invejar os pênis e corpos sarados dos jovens em banheiros públicos, não terem gratificação em relacionamentos com mocinhas e a descoberta do prazer intelectual de namorar mulheres mais maduras.

Michael Douglas (Sandy) e Alan Arkin (Norman) e os conflitos da andropausa

Vistas em conjunto, essas séries são revolucionárias porque demolem a ditadura das mulheres eternamente jovens e belas, e o estereótipo dos homens eternamente viris e poderosos. Aqui, há vida após a menopausa, as mulheres sentem tesão e enfrentam o preconceito da diferença de idade, que mais é delas do que do parceiro. E os homens se despem de sua capa de potência, e assumem os desafios muito reais da andropausa. Tudo com muito savoir-faire e, claro, humor.

O cinza mais poderoso do que nunca!


Patricia Galante de Sá tem quase 55 anos e se sente muito jovem ainda.

6 comentários

  1. Pat! Então vc tem “quase” 55? Este jeito de apresentar a idade é adoravelmente adolescente, e deixa a idade com um sentido fluido. Na verdade somos a idade q sentimos ser , pq estes números são apenas uma construção social. Às vezes me sinto mais velha ( tipo quase 100) às vezes com quase 20…. sou agefluid.

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    1. Karlinha, vc não quer escrever um texto sobre essa questão do agefluid? Acho um tema super atual e instigante. Teremos prazer em publicar!

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