Viver a beleza de cada passo

Conheci Lais Barbosa recentemente no Curso de Longevidade da FGV. Sua voz mansa e uma coleção de medalhas ao fundo já chamou a atenção desde o primeiro dia na hora das apresentações. A partir daí já foi eleita a musa da turma.

Sempre que tinha que apresentar um trabalho ela dizia que, por não ter tanta habilidade no powerpoint, preferia apenas falar suas conclusões. Era uma aula de como contar histórias, ou no jargão empresarial “storytelling”.

Lais  nasceu em Pelotas- RS, no dia em que se celebra a consciência negra  em homenagem ao Zumbi dos Palmares. Filha de um sapateiro (criador de sapatos!) e de uma mulher guerreira que começou a trabalhar com 9 anos em uma fábrica de chapéus.  Apesar de ambos terem estudado apenas até o terceiro ano primário, valorizavam os estudos e incentivavam seus 2 filhos a irem além. Sua mãe a queria ver como professora, mas ela optou por cursar Direito na Universidade Federal de Pelotas, no que foi apoiada pelo pai. Com poucos recursos, abriu  um modesto escritório com outros colegas até que foi aprovada num concurso para Pretora (na época, uma espécie de Juiz que atuava em poucas causas).

Sabe onde foi trabalhar? Na Comarca de Não me Toque ! Não poderia ser mais sugestivo!

Depois foi aprovada para Juíza de Direito e atuou em muitas cidades gaúchas, sendo que em algumas delas quebrou vários paradigmas como a primeira mulher e a primeira negra ocupar um lugar na magistratura. Seguiu para Porto Alegre e  foi promovida para Desembargadora do Tribunal de Justiça/RS, atuando principalmente na área criminal.

Acostumada a trabalhar em média 18 horas por dia, aposentou-se por tempo de serviço e resolveu se dedicar ao esporte, principalmente à corrida de rua. Com seu segundo marido, um carioca parceirão, como ela diz, viajou por todo Brasil “batendo pernas”, ele completando as maratonas e ela fazendo corridas de até 16 km.

No final de 2019, início de 2020, descobriu um câncer raro. No meio da pandemia da Covid-19, em pleno tratamento de quimioterapia e radioterapia, achou-se de se inscrever numa pós graduação online da PUC no curso de Influência Digital. Antes de entregar  o TCC, também se inscreveu no curso da FGV , no qual sou professora e daí começou nossa história de encantamento.

Sofrendo com graves sequelas dos tratamentos, encarou ainda um curso virtual de Design Gráfico, desenvolve como autodidata desenhos digitais no próprio celular, pratica  mobgrafia (arte fotográfica com dispositivos móveis), compartilha no Instagram e já participou de concursos e exposições, sendo premiada na França.

Quimioterapia com alegria.

Como a pandemia cancelou as corridas presenciais de rua, ela participa dos desafios das caminhadas virtuais, através de plataformas internacionais, simulando as ruas das cidades homenageadas. Após concluir os percursos, as medalhas chegam em casa. E assim, a coleção só vai crescendo!

Se antes a vida era uma corrida de 100 metros, hoje é UMA maratona.”
(Dr. Alexandre Kalache)

Apresentando seu trabalho final em frente à sua coleção de medalhas.

Como tinha que apresentar um projeto ao final do curso, ela uniu suas paixões e criou um movimento, que incentiva os longevos a curtir a vida como ela, cuidar da saúde física e mental,  fazerem caminhada e registar tudo com seus smartphones, valorizando sua cidade, despertando o olhar para o belo e fazendo novas conexões de amizade. Seu projeto se chama #Sintaoseucaminho.

Com apenas 65 anos, esta gaúcha ainda vai desbravar e fotografar muitas paisagens! 

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