A finitude de minha mãe

Por Alexandre Magalhães

Certo dia, minha mãe me liga e diz: “Alexandre, tenho Parkinson”. Revelada a doença crônica que ela enfrentaria a partir dali, eu, com o olhar profissional a que fui tomado depois de anos de pleno exercício como advogado, vi uma vantagem. Retorqui: “Poxa, mãe. Vamos abrir um champanhe. Você está isenta do IR.” Demos uma gargalhada e logo embalamos na conversa de como deveríamos cuidar do futuro dela. 

Sim, cuidar, um bem necessário a quem incondicionalmente me deu o amor que muitos não tiveram. Esse efeito comparativo sempre permeou a relação com minha mãe, como forma de reconhecimento ou, até, para amortecer pequeninos destemperos dela que podiam, naturalmente, se dar em sua vida tão difícil, desde que seu pai saiu de casa quando ela tinha 5 ou 6 anos, até o fim de seu casamento, quase 60 anos depois. 

Fato é que nunca vi minha mãe reclamar abertamente de suas vicissitudes, sempre tratando de manter a casa que morávamos em ordem, devidamente arrumada, um ambiente acolhedor e intimista – já que contavam com suas próprias pinturas e demais artes que nortearam a minha existência.

Em dado momento, assumi integralmente os cuidados de minha mãe, ao estar mais exposta às limitações da doença que a abraçavam. Um esquecimento aqui. Um deslize breve ali. Um deambular vacilante. Um fêmur quebrado. Algumas horas perdida entre a cama e a parede, porque não tinha forças para se levantar. 

Enfim, a doença chegara num ponto em que vislumbrei que minha mãe mudara de papel comigo. E com isso, evitando conflitos internos que pudessem me deprimir, lembrei-me com afeto de todo o cuidado que ela teve comigo, desde a minha infância até a fase adulta. 

Era tão abundante o carinho, a delicadeza, fui tão envolto por um espírito elevado como a dela, uma pessoa que dançava com a vassoura quando uma boa música tocava… com toda essa história, eu não podia lamentar. Não. Ela merecia, como merece, o mesmo cuidado e Amor que me deu, a dignidade que me sempre me proporcionou.

Os anos foram passando e eu assistia, suavemente, a memória colocando minha mãe em seu passado, como se fosse o presente. Suas questões sobre quem eu era (e sou), as palavras que já não têm mais tanta força e que se perdem confusas, tudo isso serve para me fazer consciente da finitude de minha mãe. 

Cuido para que tenha dignidade em sua vida, se alimente adequadamente, consiga respirar nosso ar de forma justa e que suas memórias do passado sejam mesmo seu presente, sem criar sobre um isso qualquer sentimento de uma perda. Não vejo como vantagem para ela ou para eu alimentar angústias, lamentações ou frustrações. A vida é curta para mim também e, por essa premissa, devo manter sã a minha mente.

Hoje ela adormeceu em meu ombro. Acariciei seu braço com minha mão direita à sua volta e, com a mão esquerda, segurava a dela. E fiz o que tenho feito: introjetar a falta que ela fará quando não estiver mais aqui. Essa preparação, eu vejo como muito necessária. 

De sua vida, já levo lições importantes: tenho que ser um homem melhor a cada dia. Gratidão é pouco para quem sempre cuida de você. E daí tiro minha inspiração para ser um pai atento e presente para meus próprios filhos.

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ALEXANDRE MAGALHÃES é advogado, carioca, casado e pai de um casal de filhos. Tem uma sólida carreira assessorando grandes empresas como Coca-Cola, Cisco, Light e CSN, além de forte atuação em demandas jurídicas de megaeventos, como Olimpíadas e Copa do Mundo, trabalhando com o COB e FIFA.

6 comentários

  1. Alexandre, deixou-me muito feliz a sua expressão sincera de um filho que reconhece dever á sua mãe toda a formação da pessoa que você é. Assim também eu tenho essa dívvida impagável com meus pais, presenças maravilhosas na minha vida. Como pai e avô, essa é a imagem que eu gostaria de ter deixado na mente e no coração das minhas filhas e netos e netas.

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